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domingo, 28 de dezembro de 2014

Graffiti - Julio Cortázar



Tantas coisas que começam e talvez acabem como um jogo, suponho que te divertiu encontrar o desenho ao lado do teu, atribuíste-o a um acaso ou a um capricho e só à segunda vez te apercebeste de que era intencional e então olhaste-o devagar, voltaste mesmo mais tarde para olhá-lo de novo, tomando as precauções de sempre: a rua no seu momento mais solitário, nenhum carro celular nas esquinas próximas, aproximar-se com indiferença e nunca olhar os graffiti de frente mas desde o outro passeio ou em diagonal, fingindo interesse pela vidraça do lado, partindo em seguida.
         O teu próprio jogo começara por aborrecimento, não era na verdade um protesto contra o estado de coisas na cidade, o recolher obrigatório, a proibição ameaçadora de colar cartazes ou de escrever nos muros. Simplesmente divertia-te fazer desenhos com giz colorido (não gostavas do termo graffiti, tão de crítico de arte) e de vez em quando vir vê-los e até com um pouco de sorte assistir à chegada do camião municipal e aos insultos inúteis dos empregados enquanto apagavam os desenhos. Pouco lhes importava que não fossem desenhos políticos, a proibição abarcava qualquer coisa, e se alguma criança se tivesse atrevido a desenhar uma casa ou um cão, também isso teriam apagado entre palavrões e ameaças. Na cidade, já mal se sabia de que lado estava verdadeiramente o medo: talvez por isso te divertisse controlar a tua vida e de quando em vez escolher o lugar e a hora propícios para fazer um desenho.
         Nunca correras perigo porque sabias escolher bem, e no tempo que passava até que chegassem os camiões de limpeza abria-se para ti qualquer coisa como um espaço mais limpo onde quase cabia a esperança. Olhando de longe o teu desenho, podias ver as pessoas que lhe atiravam um olhar ao passar, obviamente ninguém se detinha, mas ninguém deixava de olhar o desenho, por vezes uma rápida composição abstracta a duas cores, um perfil de pássaro ou duas figuras enlaçadas. Apenas uma vez escreveste uma frase, com giz negro: A mim também me dói. Não durou duas horas, e desta vez foi a própria polícia que a fez desaparecer. Depois disso, continuaste a fazer apenas desenhos.
         Quando o outro apareceu ao lado do teu, quase tiveste medo, de repente o perigo tornava-se duplo, alguém se encorajava como tu a divertir-se à beira da prisão ou de qualquer coisa pior, e esse alguém, como se ainda fosse pouco, era uma mulher. Tu mesmo não podias prová-lo, havia qualquer coisa diferente e melhor que as provas mais rotundas: um traço, uma predilecção pelos gizes cálidos, uma aura. Talvez porque andasses sozinho, imaginaste-a por compensação; admiraste-a, tiveste medo por ela, esperaste que fosse a única vez, quase te denunciaste quando ela voltou a desenhar ao lado de outro desenho teu, uma vontade de rir, de permanecer ali, diante dele, como se os polícias fossem cegos ou idiotas.
         Principiou um tempo diferente, mais sigiloso, mais belo e ameaçador ao mesmo tempo. Descuidando o teu emprego, saías não importava em que momento com a esperança de surpreendê-la, escolheste para os teus desenhos essas ruas que podias percorrer num só rápido itinerário; voltaste de madrugada, ao anoitecer, às três da manhã. Foi um tempo de contradição insuportável, a decepção de encontrar um novo desenho dela junto a algum dos teus e a rua vazia, e a de não encontrar nada e a rua ainda mais vazia. Certa noite, viste o seu primeiro desenho sozinho; fizera-o com gizes vermelhos e azuis numa porta de garagem, aproveitando a textura das madeiras carcomidas e as cabeças dos pregos. Era ela mais do que nunca, o traço, as cores, mas sentiste além disso que aquele desenho funcionava como um pedido ou uma interrogação, uma maneira de chamar-te. Voltaste de madrugada, depois de as patrulhas baterem na sua surda drenagem as ruas, e no resto da porta desenhaste uma rápida paisagem com velas e quebra-mares; de não olhá-lo bem, dir-se-ia um jogo de linhas desordenadas, mas ela saberia olhá-lo. Nessa noite, escapaste por pouco a um par de polícias, no teu apartamento bebeste gim após gim e falaste com ela, disseste-lhe tudo o que te vinha à cabeça como outro desenho sonoro, outro porto com velas, imaginaste-a morena e silenciosa, escolheste-lhe lábios e seios, amaste-a um pouco.
         Quase em seguida, ocorreu-te que ela procuraria uma resposta, que voltaria ao seu desenho como tu voltavas agora aos teus, e embora o perigo fosse cada vez maior depois dos atentados no mercado, atreveste-te a aproximar-te da garagem, a rondar a zona, a tomar intermináveis cervejas no café da esquina. Era absurdo, porque ela não se deteria depois de ver o teu desenho, qualquer das muitas mulheres que iam e vinham podiam ser ela. Ao amanhecer do segundo dia, escolheste um paredão cinzento e desenhaste um triângulo branco rodeado de manchas como folhas de carvalho; do mesmo café da esquina, podias ver o paredão (já tinham limpado a porta da garagem e uma patrulha voltava uma e outra vez, raivosa), ao anoitecer afastaste-te um pouco mas escolhendo diferentes pontos de mira, deslocando-te de um sítio a outro, comprando mínimas coisas nas lojas para não chamar demasiado a atenção. Já era noite cerrada quando ouviste a sirene e os projectores te varreram os olhos. Havia um confuso ajuntamento junto ao paredão, correste contra toda a sensatez e só te ajudou a sorte de haver um carro dando a volta à esquina e travando ao ver o carro celular, o seu vulto protegeu-te e viste a luta, um cabelo negro puxado por mãos enluvadas, os pontapés e os gritos, a visão entrecortada de umas calças azuis antes de a atirarem para o carro e a levarem.
         Muito depois (era horrível tremer assim, era horrível pensar que aquilo estava a acontecer por culpa do teu desenho no paredão cinzento), misturaste-te com outras pessoas e conseguiste ver um esboço em azul, os traços daquele laranja que era como o seu nome ou a sua boca, ela ali naquele desenho truncado que os polícias tinham mascarrado antes de levá-la; sobrara o suficiente para compreender que quisera responder ao teu triângulo com outra figura, um círculo ou talvez uma espiral, uma forma plena e bela, qualquer coisa como um sim ou um sempre ou um agora.
         Sabia-lo muito bem, sobrar-te-ia tempo para imaginar os detalhes sobre o que estaria a acontecer no quartel central; na cidade, tudo aquilo se revelava pouco a pouco, as pessoas estavam a par do destino dos prisioneiros, e se às vezes voltavam a ver um ou outro, teriam preferido não tê-los visto e que tal como a maioria se tivessem perdido nesse silêncio que ninguém se atrevia a quebrar. Sabia-lo de sobra, essa noite de gim não te ajudaria mais que a morder as mãos, a pisar os gizes coloridos antes de te perderes na bebedeira e no choro.
         Sim, mas os dias passavam e já não sabias viver de outra maneira. Voltaste a abandonar o teu trabalho para andar às voltas pelas ruas, olhar furtivamente as paredes e as portas onde ela e tu tinham desenhado. Tudo limpo, tudo claro; nada, nem sequer uma flor desenhada pela inocência de um estudante da preparatória que rouba um giz na aula e não resiste ao prazer de usá-lo. Também tu não pudeste resistir, e um mês depois levantaste-te ao amanhecer e voltaste à rua da garagem. Não havia patrulhas, as paredes estavam perfeitamente limpas; um gato olhou-te cauteloso de uma portada quando tiraste os gizes e no mesmo lugar, ali onde ela deixara o seu desenho, encheste as madeiras com um grito verde, uma vermelha labareda de reconhecimento e de amor, envolveste o teu desenho com um ovóide que era também a tua boca e a sua e a esperança. Os passos na esquina lançaram-te num caminho almofadado, ao abrigo de uma pilha de caixas vazias; um bêbedo vacilante aproximou-se cantarolando, quis pontapear o gato e caiu de barriga para baixo junto ao desenho. Afastaste-te lentamente, já seguro, e com o primeiro sol dormiste como não tinhas dormido em muito tempo.
         Nessa mesma manhã, olhaste de longe: não o tinham apagado ainda. Voltaste a meio do dia: quase inconcebivelmente, continuava ali. A agitação nos subúrbios (tinhas escutado os noticiários) afastava as patrulhas urbanas da sua rotina; ao anoitecer, voltaste a vê-lo como tanta gente o vira ao longo do dia. Esperaste até às três da manhã para regressar, a rua estava vazia e negra. De longe, descobriste o outro desenho, só tu poderias tê-lo distinguido, tão pequeno em cima e à esquerda do teu. Aproximaste-te com um misto de sede e horror, viste o ovóide laranja e as manchas violeta de onde parecia saltar uma cara tumefacta, um olho dependurado, uma boca esmagada a bofetadas. Eu sei, eu sei, mas que outra coisa teria podido desenhar-te? Que mensagem teria sentido agora? Tinha de encontrar uma forma de dizer-te adeus e de pedir-te ao mesmo tempo que continuasses. Tinha de deixar-te alguma coisa antes de voltar ao meu refúgio onde já não havia nenhum espelho, apenas um buraco para esconder-me até ao fim na mais completa escuridão, recordando tantas coisas e, às vezes, assim como imaginara a tua vida, imaginando que fazias outros desenhos, que saías à noite para fazer outros desenhos.

Gostamos Tanto da Glenda
Cavalo de Ferro, 2014

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Tango do Regresso - Julio Cortázar



A luz do candeeiro baixo chegava apenas até à cama no fundo do quarto, confusamente via-se uma das mesas-de-cabeceira e o sofá onde ficara abandonado o romance, mas já não estava ali, depois de tantos dias a Flora ter-se-ia decidido a pô-lo sobre a prateleira vazia da biblioteca. Ao segundo whisky, a Matilde ouviu darem as dez horas nalgum campanário longínquo, pensou que nunca antes ouvira aquele sino, contou cada uma das badaladas e olhou o telefone, talvez a Perla, mas não, a Perla a essa hora não, levava sempre a mal ou não estava. Ou a Alcira, ligar à Alcira e dizer-lhe, apenas dizer-lhe que tinha medo, que era uma estupidez, mas se por acaso o Mario não teria saído com o carro, qualquer coisa assim. Não ouviu a porta da entrada a abrir-se, mas ia dar ao mesmo, era absolutamente certo que a porta da entrada estava a abrir-se ou ia abrir-se e não podia fazer nada, não podia sair para o patamar iluminando-o com a luz do quarto e olhar na direcção da sala, não podia tocar a campainha para que a Flora viesse, o insecticida estava ali, a água também ali para os remédios e para a sede, a cama aberta esperando por ela. Foi até à janela e viu a esquina vazia; caso tivesse assomado antes, teria visto talvez o Milo a aproximar-se, atravessar a rua e desaparecer debaixo da varanda, mas teria sido ainda pior, que podia ela gritar ao Milo, como detê-lo se ia entrar na casa, se a Flora lha ia abrir para recebê-lo no seu quarto, a Flora ainda pior que o Milo nesse momento, a Flora que perceberia tudo, que se vingaria do Milo vingando-se nela, derrubando-a na lama, no Germán, atirando-a para o escândalo. Não restava a menor possibilidade de nada, mas também não podia ser ela a gritar a verdade, em plena impossibilidade restava-lhe uma absurda esperança de que o Milo viesse apenas por causa da Flora, que um incrível destino lhe tivesse mostrado a Flora para além de tudo o resto, que essa esquina tivesse sido qualquer esquina para o Milo de regresso a Buenos Aires, do Milo sem saber que aquela era a casa do Germán, sem saber que estava morto lá no México, do Milo sem procurá-la por sobre o corpo da Flora. Cambaleando bêbeda, foi até à cama, arrancou a roupa que se lhe colava à pele, despida deitou-se de lado na cama e procurou o frasco de comprimidos, o último porto rosa e verde ao alcance da mão. Não era fácil fazer os comprimidos sair e a Matilde ia-os acumulando na mesa-de-cabeceira sem olhar para eles, os olhos perdidos na estante onde estava o romance, via-o nitidamente virado para baixo na única prateleira vazia onde a Flora o pusera sem o fechar, via a faca malaia que o Cholo oferecera ao Germán, a bola de cristal sobre a sua base de veludo rubro. Tinha a certeza de que a porta se abrira lá em baixo, que o Milo entrara na casa, no quarto da Flora, que estaria a falar com a Flora ou já teria começado a despi-la, porque para a Flora essa tinha de ser a única razão pela qual o Milo estava ali, ganhar o acesso ao seu quarto para despi-la e despir-se beijando-a, deixa-me, deixa-me tocar-te assim, e a Flora resistindo-lhe e hoje não, Simón, tenho medo, deixa-me, mas o Simón sem pressa, pouco a pouco deitava-a atravessada na cama e beijava-lhe o cabelo, procurava-lhe os seios sob a blusa, apoiava-lhe uma perna sobre as coxas e tirava-lhe os sapatos como se fosse um jogo, falando-lhe ao ouvido e beijando-a cada vez mais perto da boca, amo-te, meu amor, deixa-me despir-te, deixa-me olhar para ti, és tão bonita, desligando o candeeiro para envolvê-la em penumbra e em carícias, a Flora abandonando-se com um primeiro gemido, o medo de que se ouvisse alguma coisa no andar de cima, de que a senhora Matilde ou o Carlitos, mas não, fala baixo, deixa que eu assim agora, a roupa caindo em qualquer lado, as línguas encontrando-se, os gemidos, não me magoes, Simón, por favor não me magoes, é a primeira vez, Simón, eu sei, fica quieta, agora cala-te, não grites, meu amor, não grites.

Gritou mas dentro da boca do Simón, que sabia o momento, que tinha a sua língua entre os dentes e lhe fundia os dedos no cabelo, gritou e depois chorou sob as mãos do Simón, que lhe tapavam a cara acariciando-a, sossegou com um último ai mãe, ai mãe, um queixume que se ia transformando num ofegar e num gemido doce e calado, num querido, querido, a branda estação dos corpos fundidos, do fôlego quente da noite. Muito mais tarde, depois de dois cigarros encostados às almofadas, da toalha entre as coxas cheias de vergonha, as palavras, os projectos que Flora balbuciava como num sonho, a esperança que Simón escutava sorrindo, beijando-a nos seios, andando nela com uma lenta aranha de dedos pelo ventre, deixando-se levar, amodorrar-se, dorme agora um pouco, eu vou à casa de banho e volto, não preciso de luz, sou como um gato de noite, sei onde é, e a Flora mas não, e se te ouvem, Simón, não sejas chata, já te disse que sou como um gato e sei onde está a porta, dorme um momento que eu já venho, isso, quietinha.

Fechou a porta como se acrescentasse outro pouco de silêncio à casa, despido atravessou a cozinha e a sala, virou-se para as escadas e pôs o pé no primeiro degrau, experimentando-o. Boa madeira, boa casa a do Germán Morales. No terceiro degrau viu marcada a faixa de luz sob a porta do quarto; subiu os outros quatro degraus e pôs a mão na maçaneta, abriu a porta com um só empurrão. O golpe contra a cómoda atingiu o Carlitos num sonho intranquilo, endireitou-se na cama e gritou, muitas vezes gritava de noite e a Flora levantava-se para acalmá-lo antes de que a senhora Matilde se inquietasse, envolveu-se com o lençol e acorreu ao quarto do Carlitos, encontrou-o sentado ao pé da cama olhando para o ar, gritando de medo, levantou-o nos braços falando-lhe, dizendo-lhe que não, que ela estava ali, que lhe traria chocolate, que lhe deixaria a luz acesa, ouviu o grito incompreensível e entrou na sala com o Carlitos ao colo, a escada iluminada pela luz de cima, chegou ao pé das escadas e viu-os à porta cambaleando, os corpos despidos transformados numa só massa que desabava lentamente no patamar, que resvalava pelos degraus, que sem desprender-se rolava escadas abaixo numa desarrumação confusa até deter-se imóvel no tapete da sala.

Gostamos Tanto da Glenda
Cavalo de Ferro, 2014

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Recortes de imprensa - Julio Cortázar



A menina tinha ido directamente até à estreita passagem entre dois canteiros que conduzia à porta do pavilhão; virou-se apenas para se assegurar de que eu a seguia, e entrou na barraca. Sei que deveria ter parado e dado meia volta, dizer para mim mesma que aquela menina tivera um pesadelo e estava a voltar para a cama, todas as razões da razão que nesse momento me mostravam o absurdo e o possível risco que corria ao meter-me àquela hora em casa alheia; talvez ainda mo estivesse dizendo quando atravessei a porta encostada e vi a menina que me esperava num vago saguão cheio de trastes e de ferramentas de jardim. Um raio de luz passava por debaixo da porta do fundo, e a menina mostrou-ma com a mão e descobriu quase a correr o resto do saguão, começando a abrir imperceptivelmente a porta. A seu lado, recebendo em plena cara o raio amarelecido da fenda que se ampliava pouco a pouco, senti um cheiro a queimado, ouvi uma espécie de grito abafado que voltava e voltava e parava e voltava; empurrei a porta com a mão e divisei o quarto infecto, os bancos partidos e a mesa com garrafas de cerveja e de vinho, os copos e a toalha de jornais velhos, além a cama e o corpo despido e amordaçado com uma toalha manchada, as mãos e os pés atados às barras de ferro. De costas para mim, sentado num banco, o papá da menina fazia coisas à mamã; tomava o seu tempo, levava lentamente o cigarro à boca, deixava sair pouco a pouco o fumo pelo nariz, enquanto a brasa do cigarro descia até parar no seio da mamã, permanecia o tempo que duravam os gritos sufocados pela toalha envolvendo a boca e a cara, excepto os olhos. Antes de compreender, antes de me ser possível aceitar fazer parte daquilo, houve tempo para que o papá retirasse o cigarro e o levasse novamente à boca, tempo de reavivar a brasa e de saborear o excelente tabaco francês, tempo para que eu visse o corpo queimado do ventre ao pescoço, as manchas roxas ou vermelhas que subiam desde as coxas e do sexo até aos seios onde agora voltava a apoiar a brasa com uma selecta delicadeza, procurando um espaço da pele sem cicatrizes. O grito e a convulsão do corpo na cama, que rangeu sob o espasmo, misturaram-se com coisas e com actos que não escolhi e que jamais conseguirei explicar; entre o homem de costas e eu havia um banco desconjuntado, vi-o erguer-se no ar e cair de quina sobre a cabeça do papá; o seu corpo e o banco rolaram pelo chão quase no mesmo segundo. Tive de lançar-me para trás para não cair também eu, no movimento de erguer o banco e de arremessá-lo pusera todas as minhas forças que no mesmo instante me abandonaram, me deixavam sozinha como um pelele cambaleante; sei que procurei um apoio sem o encontrar, que olhei vagamente para trás e vi a porta fechada, a menina já não estava ali e o homem no chão era uma mancha confusa, um trapo enrugado. O que aconteceu depois podia tê-lo visto num filme ou lido num livro, eu estava ali como se não estivesse, mas estava com uma agilidade e uma intencionalidade tais que, num brevíssimo espaço de tempo, se é que aquilo aconteceu dentro do tempo, me fizeram encontrar uma faca em cima da mesa, cortar as cordas que prendiam a mulher, arrancar-lhe a toalha da cara e vê-la levantar-se em silêncio, agora perfeitamente em silêncio como se tal fosse necessário e até imprescindível, olhar o corpo no chão que principiava a contrair-se desde uma inconsciência que não duraria muito, olhar-me sem palavras, ir até junto do corpo e agarrá-lo pelos braços enquanto eu lhe sujeitava as pernas e com um duplo balancear o estendíamos na cama, o atávamos com as mesmas cordas apressadamente concertadas e amarradas, o atávamos e amordaçávamos dentro desse silêncio onde alguma coisa parecia vibrar e estremecer num som ultra-sónico. O que aconteceu depois não sei, vejo a mulher sempre despida, as suas mãos arrancando pedaços de roupa, desabotoando umas calças e baixando-as até encarquilhá-las contra os pés, vejo os seus olhos nos meus, um só par de olhos desdobrados e quatro mãos arrancando e rasgando e despindo, colete e camisa e cuecas, agora que tenho de recordá-lo e que tenho de escrevê-lo, a minha maldita condição e a minha dura memória trazem-me outra coisa indizivelmente vivida mas não vista, uma passagem de um conto de Jack London em que um caçador do norte luta por ganhar uma morte limpa, enquanto a seu lado, convertido numa coisa sanguinolenta que ainda conserva um resto de consciência, o seu companheiro de aventuras uiva e contorce-se torturado pelas mulheres da tribo que fazem dele uma horrorosa prolongação da vida entre espasmos e gritos, matando-o sem matá-lo, requintadamente refinadas em cada nova variante jamais descrita mas real, como nós reais e jamais descritas e fazendo o que devíamos, o que tínhamos de fazer.  É inútil perguntar agora por que razão estava eu envolvida naquilo, qual era o meu direito e a minha parte naquilo que estava a acontecer diante dos meus olhos, que sem dúvida viram, que sem dúvida recordam como a imaginação de London deve ter visto e recordado o que a sua mão não era capaz de escrever. Sei apenas que a menina não estava connosco desde que eu entrara naquele sítio, e que agora a mamã fazia coisas ao papá, mas quem sabe se somente a mamã ou se eram outra vez as rajadas da noite, pedaços de imagens regressando de uma notícia de jornal, as mãos cortadas do seu corpo e postas num frasco com o número 24, através de fontes não oficiais apercebemo-nos de que faleceu subitamente nos começos da tortura, a toalha na boca, os cigarros acesos, e Victoria, de dois anos e seis meses, e Hugo Roberto, de um ano e seis meses, abandonados na porta do edifício. Como poderia eu saber quanto tempo durou, como entender que também eu, como aceitar que também eu realmente do outro lado de mãos cortadas e de fossas comuns, também eu do outro lado das raparigas torturadas e fuziladas nessa mesma noite de Natal; o resto é um virar as costas, atravessar o horto embatendo contra uma cerca e abrindo um joelho, sair para a rua gelada e deserta e chegar à Place de la Chapelle e encontrar quase de imediato um táxi que me trouxe a um copo após outro de vodka e a um sono do qual despertei ao início da tarde, atravessada na cama e vestida dos pés à cabeça, com o joelho a sangrar e essa dor de cabeça talvez providencial que provoca a vodka pura quando passa do gargalo à garganta.

Gostamos Tanto da Glenda
Cavalo de Ferro, 2014

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Final do Jogo - Julio Cortázar



O nosso reino era assim: uma grande curva das vias concluía o seu arco precisamente à frente das traseiras da nossa casa. Havia apenas o balastro, as travessas e a via dupla, a erva rala e estúpida entre pedras em pedaços onde a mica, o quartzo e o feldspato – que são os componentes do granito – brilhavam como autênticos diamantes ao sol das duas horas da tarde. Quando nos agachávamos para tocar nas vias (sem nos demorarmos muito, pois era perigoso ficar ali durante muito tempo, não tanto pelos comboios mas mais por quem estava em casa, caso nos chegassem a ver) o fogo das pedras subia-nos à cara, e quando nos detínhamos com o vento do rio de frente era um calor molhado que se nos colava às bochechas e às orelhas. Gostávamos de dobrar as pernas, baixando e subindo e baixando outra vez, invadindo uma e outra zona de calor, observando, gostando de ver as nossas caras transpiradas, até ficarmos ensopadas. E caladas sempre, olhando o fundo das vias ou o rio do outro lado, o pedacinho de rio cor de café com leite.

Final do Jogo
Cavalo de Ferro, 2014

domingo, 30 de novembro de 2014

O ídolo das Cícladas - Julio Cortázar



Antes de voltar a olhar para ele, Morand vomitou no canto do atelier, sobre os trapos sujos. Sentia-se vazio, e vomitar fez-lhe bem. Levantou o copo do chão e bebeu o que restava do whisky, pensando que Thérèse chegaria a qualquer momento e que era necessário fazer alguma coisa, avisar a polícia, explicar-se. Enquanto arrastava com um pé o corpo de Somoza, até expô-lo inteiro à luz do reflector, pensou que não lhe seria difícil demonstrar que agira em legítima defesa. As excentricidades de Somoza, o seu alheamento do mundo, a evidente loucura. Agachando-se, molhou as mãos no sangue que corria pela cara e pelo cabelo do morto, olhando ao mesmo tempo o seu relógio de pulso que marcava as sete e quarenta. Thérèse devia estar a chegar, o melhor era sair, esperar por ela no jardim ou na rua, evitar-lhe o espectáculo do ídolo com a cara jorrando sangue, os fiozinhos vermelhos que resvalavam pelo pescoço, contornavam os seios, que se juntavam no fino triângulo do sexo, escorriam pelas coxas. O machado estava profundamente sepultado na cabeça do sacrificado, e Morand agarrou-o balanceando-o entre as mãos pegajosas. Empurrou um pouco mais o cadáver com um pé até deixá-lo contra a coluna, farejou o ar e aproximou-se da porta. O melhor seria abri-la para que Thérèse pudesse entrar. Apoiando o machado junto à porta, começou a tirar a roupa, porque estava calor e cheirava a um ar espesso, a uma multidão encerrada. Já estava despido quando ouviu o ruído do táxi e a voz de Thérèse dominando o som das flautas. Apagou a luz e, com o machado na mão, esperou atrás da porta, lambendo o gume do machado e pensando que Thérèse era a pontualidade em pessoa.

Final do Jogo
Cavalo de Ferro, 2014

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O rio - Julio Cortázar




        E sim, parece que é assim, que te foste embora dizendo não sei o quê, que te ias atirar ao Sena, qualquer coisa desse tipo, uma dessas frases em plena noite, misturadas com o lençol e de boca pastosa, quase sempre na escuridão ou com qualquer coisa de mão ou de pé roçando o corpo daquele que quase nem ouve, porque há já tanto tempo que quase nem te oiço quando dizes essas coisas, coisas que vêm do outro lado dos meus olhos fechados, do sono que me afunda novamente. Então está bem, que importa que tenhas partido, se te afogaste ou se ainda andas pelos cais olhando a água, e além disso não tenho a certeza, pois estás aqui adormecida respirando entrecortadamente, mas então não partiste quando partiste a certa altura na noite antes de eu me perder no sono, porque tinhas partido dizendo alguma coisa, que te ias afogar no Sena, ou seja tiveste medo, arrependeste-te e de súbito estás aqui quase a tocar-me, e moves-te ondulando como se alguma coisa trabalhasse suavemente no teu sono, como se verdadeiramente sonhasses que partiste e que após tudo isto chegaste ao cais e te atiraste à agua. Qualquer coisa assim, novamente, para adormeceres depois com a cara encharcada por um choro estúpido, até às onze da manhã, hora em que trazem o jornal com as notícias dos que de facto se afogaram.

         Dás-me vontade de rir, coitada. As tuas determinações trágicas, essa maneira de andar a bater às portas como uma actriz de tournées de província, pergunto-me se realmente acreditas nas tuas ameaças, nas tuas repugnantes chantagens, nas tuas inesgotáveis cenas patéticas untadas de lágrimas e de adjectivos e de repetições. Merecias alguém mais dotado do que eu que redarguisse, ver-se-ia erguer-se então o casal perfeito, com o deleitoso fedor do homem e da mulher que se destroem enquanto se olham nos olhos para assegurarem o mais precário adiamento, para sobreviverem ainda e voltarem a tentar e perseguirem inesgotavelmente a sua verdade de terreno baldio e de restos raspados do fundo do tacho. Mas, como podes ver, escolho o silêncio, acendo um cigarro e oiço o que dizes, oiço as tuas queixas (que têm razão de ser, mas que posso eu fazer?), ou, o que ainda é melhor, vou-me deixando adormecer, quase embalado pelas tuas previsíveis imprecações, com os olhos semicerrados misturo ainda por um instante as primeiras vagas dos sonhos com os teus gestos de ridícula camisa de dormir à luz do candelabro que nos ofereceram quando nos casámos, e julgo que por fim adormeço e levo comigo, confesso-to quase com amor, a parte mais aproveitável dos teus movimentos e das tuas denúncias, o som explosivo que te deforma os lábios lívidos de cólera. Para enriquecer os meus próprios sonhos onde nunca ninguém se lembra de afogar-se, acredita.


         Mas se é assim pergunto-me o que estás a fazer nesta cama que tinhas decidido abandonar pela outra mais vasta e mais esquiva. É que agora dormes, moves de quando em quando uma perna que vai mudando o desenho do lençol, pareces incomodada com alguma coisa, não demasiado incomodada, é como um cansaço amargo, os teus lábios esboçam um esgar de desprezo, deixam escapar o ar entrecortadamente, recolhem-no a baforadas breves, e julgo que se não estivesse tão exasperado pelas tuas falsas ameaças admitiria que és outra vez bonita, como se o sono te devolvesse um pouco do meu lado em que o desejo é possível e até mesmo a reconciliação ou um novo prazo, qualquer coisa menos turva do que este amanhecer onde principiam a rolar os primeiros carros e os galos abominavelmente desnudam a sua horrenda servidão. Não sei, já nem sequer faz sentido perguntar outra vez se chegaste a partir, se eras tu quem bateu com a porta ao sair no instante exacto em que eu resvalava no esquecimento, e é talvez por isso que prefiro tocar-te, não porque duvide de que estás aqui, provavelmente nem chegaste a sair do quarto, talvez um golpe de vento tenha fechado a porta, sonhei que partiras enquanto tu, julgando-me acordado, me gritavas a tua ameaça aos pés da cama. Não é por isso que te toco, na penumbra verde do amanhecer é quase doce passar uma mão por esse ombro que estremece e me recusa. O lençol cobre-te pela metade, os meus dedos começam a descer pelo cristalino desenho da tua garganta, inclinando-me respiro o teu hálito que cheira a noite e a xarope, não sei como mas os meus braços envolveram-te, oiço um queixume enquanto arqueias a cintura, resistindo, mas os dois conhecemos demasiado bem este jogo para acreditarmos nele, é preciso que me abandones a boca que ofega palavras soltas, de nada serve que o teu corpo amodorrado e vencido lute procurando escapar-se, somos a tal ponto uma mesma coisa nesse enredo de novelo onde a lã branca e a lã negra lutam como aranhas num bocal. No lençol que já quase não te cobre consigo entrever a lufada instantânea que sulca o ar e se perde na sombra e agora estamos nus, o amanhecer envolve-nos e reconcilia-nos numa só matéria trémula, mas obstinas-te em lutar, encolhendo-te, lançando os braços por sobre a minha cabeça, abrindo como num relâmpago as coxas para voltar a fechar as suas tenazes monstruosas que desejam separar-me de mim mesmo. Tenho de dominar-te lentamente (e, como sabes, fi-lo sempre com uma graça cerimonial), vou dobrando os juncos dos teus braços sem magoar-te, cinjo-me ao teu prazer de mãos crispadas, de olhos enormemente abertos, agora o teu ritmo enfim afunda-se como um pano de seda em lentos movimentos ondulantes, de profundas borbulhas subindo até à minha cara, vagamente acaricio o teu cabelo espalhado na almofada, olho surpreendido a minha mão que jorra na penumbra verde, e antes de resvalar a teu lado sei que acabam de tirar-te da água, e que é demasiado tarde, naturalmente, e que jazes sobre as pedras do cais rodeada de sapatos e de vozes, nua e com as costas no chão, com o teu cabelo encharcado e os teus olhos abertos.

Final do Jogo
Cavalo de Ferro, 2014

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Falta de informação



Está frio. É preferível fundir as mãos na névoa
como um pano húmido, e rectificar a pontaria.
Terminada a operação, o cirurgião lava as mãos
e a enfermeira sente estremecerem-lhe os seios.
Não acordem o rouxinol que dorme no gume do bisturi,
inclinem-se sobre a pia de água benta
e comprovarão que ficou gelada em nome do pai, do filho e do espírito santo. Tombem-se sobre a mesa
de operações e sentirão o calor do candeeiro,
e sentirão avançar comboios pelos ladrilhos
e tijolos com carruagens carregadas de pedras,
e escapulários galhofeiramente agitados pelo vento.
Porque está frio e os joelhos adoptam a forma de rostos
e as redes dos pescadores escorrem entre as rochas,
e além disso estou profundamente aborrecido
de tanto frio, e tanto sal, e tanta solução de continuidade.
Não entrem nessa loja de aparelhos eléctricos
que duplicam o frio com os seus dentes de alumínio,
não penetrem na boca do próximo nem pronunciem a palavra liberdade,
porque agora caiu inteira da torre para o reservatório,
chocou contra o gelo e gretou-se como um lábio adolescente,
devo dizer-vos para que deixem de fumar porque o fumo transforma-se instantaneamente em estalactites,
tenham cuidado com os cabos da luz e os véus de noiva,
abram a porta com cuidado não vá aparecer o frio com a sua roupa de lata,
deixem de sorrir se querem segurar um raio entre os lábios,

porque está frio e comprei o jornal para comprovar uma vez mais a falta de informação.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Satisfaz-me mais que o mar


Vejo-te além recostado contra o dique de Havana, a camisa aberta e sandálias e                                                                                                     [grandes óculos escuros,
à tua esquerda ergue-se o Morro e, ao fundo, à tua direita, um barco petroleiro                                                                                                               [rumo ao horizonte,
a balaustrada brilha inundada de sol e sobre ela recorta-se a sombra do teu                                                                                                                                             [braço,
devem ser onze da manhã, que fazes aí Blas de Otero, estás a olhar para quê ligeiramente inclinado para as fachadas carcomidas pelo salitre,
em que pensas, aonde irás quando interromperes o que estás a fazer e seguires                                                                                                                     [o teu caminho,
vais subir pelo Prado, ou por Águila, ou irás até à Rampa, tu o basco universal                                                                          [mas menos vaidoso que o moguerenho,
tu, vagabundo, poeta maldito da burguesia e da polícia e simplesmente da CIA,
que fazes aí no dique, de costas para Miami como Maceo ou qualquer cidadão                                                                                                                                   [decente,
onde vives, se é que vives nalgum sítio, no Havana Livre, na Víbora, no Riviera,
ou simplesmente no meio da Revolução, abrindo os olhos até às sobrancelhas para aprenderes tudo o que há de bom, e o talvez evitável,
tu calas,
tu continuas apoiado contra o dique
com a tua camisa despida
e a tua alma despida
e a tua palavra sempre prestes a brotar para resguardar a vida e a  justiça e a                                                                                                                                    [dignidade
e a paz e a violência de que precisam os pobres do mundo aos quais

há muitos anos entregaste definitivamente a tua sorte.

domingo, 12 de outubro de 2014

O nosso reino era assim - sobre um conto de Julio Cortázar


“Final do jogo” tematiza a emergência da adolescência como jornada identitária, a partir de um jogo que três raparigas encenam diariamente num caminho-de-ferro. Esse jogo constitui a dimensão performativa, tacteante, desse projecto de maioridade, definido num espaço de viagem (identitário, por definição, segundo Guattari). O espaço do jogo constitui um reino alheado do mundo da casa, através de uma passagem iniciática para um progressivo afastamento do espaço topofílico (Bachelard), do espaço da casa familiar, passagem essa necessária para a construção da individualidade.

A entrada em jogo de um quarto elemento, figura masculina erotizada, serve de pretexto à vocação de individuação das três raparigas, que até então se dispunham numa ordem gregária apaziguada, despoletando nelas a dimensão ambígua das relações adultas (dispostas entre eros e tânatos) que agudiza a alteridade mútua, vista conflitualmente como déficit (Freud), passo necessário à gestação da identidade (Ricoeur). Pouco a pouco, elas vão descobrindo o mundo das relações ao modo do negócio, da diferenciação, o qual anula o ócio da brincadeira infantil, prenunciando o final do jogo, o final do espaço lúdico (Schiller) como espaço da ilusão do real, descobrindo a tristeza, a mentira e a morte.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Seis poemas de Carlos Sahagún


A ESTAS HORAS

Nas bocas do metro ninguém espera
ninguém. Vêem-se apenas mãos,
extremidades mutiladas. Sob
a terra ouvem-se comboios e definhas,
ouvem-se detonações onde brilha
um instante a tua ausência e o meu infortúnio.
Nada, de resto, está mudado.
O tempo é ainda uma ponte escura,
metálica, condenada, ou certa música
que atrás de mim dura destecendo-se.
E tu, mensageira do outono,
já não poderás perder-te nesta névoa.
 Na torre, um sentinela aguarda,
traça sinais bem visíveis, sente
o preguiçoso ritmo dos teus passos
pela vereda das indecisões.
 Haverá outro tecto para teu refúgio?
Eu próprio, ó morte, sou a tua casa.



RIO
                       
O rio adolescente perdia-se, na planície,
                        gozosamente triste, como o coração.
                                                           HÖLDERLIN


Chamaram pós-guerra a este troço de rio,
a este viveiro de mortos, à cidade, aquela
dobrada como árvore velha, sempre cravada
na terra como se fosse uma cruz. E gritaram:
«Alegria! Alegria!»
Eu era um rio nascente,
era um homem nascente, com a tristeza aberta
como uma porta branca, para que o vento entrasse,
para que entrasse e agitasse as folhas
do calendário imóvel. Castelos no ar
e, embora no ar, derrubados, os sonhos
feitos pedra, madeiras que não querem arder,
raios de sol manchando os vidros mais puros,
altíssimas pombas que já não conseguem voar…
Estão a vê-lo? Vocês, os que vêm de longe,
vocês que têm o braço livre como as águias
e levam nos lábios uma rubra alegria,
passem, fitem-se em mim, tenham fé. Eu era um rio,
eu sou um rio e tenho marcado a fogo o tempo
da dor bombardeada. Minha idade, minha idade de homem,
não o esqueçam, um dia perder-se-á na terra.


A HISTÓRIA COMEÇA AQUI

A história começa aqui. Foi numa tarde
em que as pombas se haviam tornado
mais brancas, mais tranquilas. Como sempre
saí para o jardim. À volta não havia
ninguém: a mesma flor de ontem, a mesma
paz, as mesmas janelas, o mesmo sol.
À volta não havia ninguém: uma árvore,
um balcão, cinza naquele monte
longínquo. À volta não havia ninguém.

Mas este vento o que é, quem me apanha
o coração e mo levanta tenso,
e o funde e mo levanta tenso? Uma
rapariga azul na orfandade do ar
arrumava os pássaros. As suas mãos
acariciavam com piedade a árvore,
e o balcão, e aquele longínquo monte
em cinzas. O jardim ardia ao sol.

Olhei-a. Nada. Olhei-a outra vez,
e nada, e nada. À volta, a tarde.



COISAS INESQUECÍVEIS

Mas antes de tudo pensa nesta pátria,
nestes filhos que serão um dia
nossos: o menino lavrador, o menino
estudante, os meninos cegos. Diz-me
o que vai ser deles quando crescerem
e forem altos como eu e desamparados.
Por mim, pelo nosso amor de cada dia,
nunca esqueças, peço-te que não esqueças.
Nascemos os dois com a guerra. Pensa
no quão má foi aquela guerra para
os pobres. O nosso amor podia ter sido
bombardeado, mas não foi.
Os nossos pais podiam ter morrido
e não morreram. Alegria! Tudo
esquece. É o amor. Mas não. Existem
coisas inesquecíveis: esses olhos
teus, aquela guerra triste, o tempo
em que virão os pássaros, as crianças.
Acontecerá em Espanha, nesta terra
má que tanto amei, que quero tanto
que ames tu até chegares a odiá-la. Amo-te,
gostaria de não me lembrar da pátria,
deixar tudo aquilo para trás. Porém,
não podemos alheadamente
viver e pronto, amar-nos, onde um dia
morreram tantos justos, tantos pobres.
Ainda que apesar do nosso amor, lembra-te.




PRAIAS DE EXMOUTH

Pergunto-me se um homem, diante destas praias,
tem o direito de que se lembrem
do seu amor, do que outrora pronunciaram
os seus lábios, dos seus passos pelos caminhos
ao sol, ou das suas mãos
que na noite se fundiam de vez em quando, ou iam
entrelaçadas às tuas
como a um presente vivo de cristais.

E se assim for, se tu me esperares,
hei-de estender os braços neste mar do norte
e atracarei em ti.
Porque se neste instante tu estás além com conchas,
estreitando o teu olvido às minhas palavras,
e se as sentes como verdadeiras,
eu não estou esquecido.

Dez, doze barcas de pescadores,
como se atadas também à minha esperança,
estão aqui e estão a puxar-me
a mim mesmo, ou talvez
não estejam tão perto assim, mas na distância.
O meu coração poderia recordá-las,
conduzi-las a outro tempo.
Barcas que vi a teu lado certa manhã,
em Espanha, a dois passos
da felicidade de estar contigo.



OESTE A SÓS

Eu estava lá, debaixo das rodas
de uma locomotiva, na Califórnia.
Longas mãos do vento derramavam
areia em meus olhos, ouviam-se cascos
de cansados cavalos invisíveis.
Em volta, o ar aprisionava
a tristeza do Oeste a sós.
E eu não escutava nada, resvalava
pelo deserto ensanguentado o rio
da memória até à sua fonte: tu
soluçavas no fundo da noite,
filmando entre os teus lençóis longínquos
a minha repetida imagem fugitiva.
Assobiou de novo a locomotiva
e no silêncio que se seguiu não houve
ninguém para salvar-me. Desde então
tudo foi amargo e sem retorno como
um oásis na aridez do tempo.
Assim, enquanto a luz desfalecia,
procurei em vão a chuva redobrada
sobre o ardor da nossa juventude
e, desandando os caminhos, desejei
regressar vencido a casa, descer
à segurança do teu quarto, não ter
sonhado nunca com esta viagem
impossível, frustrada enfim, à América.

sábado, 27 de setembro de 2014

Mundo



Quando Santo Agostinho escrevia os seus Solilóquios.
Quando o último soldado alemão se desmoronava de asco e de impotência.
Quando as guerras púnicas
e as mulheres esbofeteadas no patamar de umas escadas,
então,
quando Santo Agostinho escrevia A cidade de Deus com uma mão
e com a outra tirava notas a fim de combater as heresias,
precisamente então,
quando ser prisioneiro de guerra não significava a morte, mas apenas a                                                                                                           [casualidade de se estar vivo,
quando as pérfidas mulheres invioláveis se dedicavam a reparar as                                                                                                                       [constelações deterioradas
e os isqueiros automáticos desfaleciam de póstuma ternura,
então, já o disse,
Santo Agostinho andava a corrigir as provas do seu Enchiridion ad Laurentium e os soldados alemães urinavam em cima das crianças 
                                                                                                      [recém-bombardeadas.

Triste, triste é o mundo,
como uma rapariga órfã de pai que os salteadores de abraços imobilizam                                                                                                                              [contra um muro
Muitas vezes temos pretendido que a solidão dos homens se enchesse de                                                                                                                                           [lágrimas.
Muitas vezes, infinitas vezes, temos deixado de dar a mão
e não temos conseguido mais nada a não ser umas quantas pedras                                                                                     [obstinadamente intercaladas entre os dentes.

Ó se Santo Agostinho se tivesse dado conta de que a diplomacia europeia
andava comprometida com artistas de varietés de muito duvidosa reputação,
e que o exército norte-americano costumava receber pacotes nos quais a mais                                                                                                    [ligeira falha de ortografia
era aclamada como venturoso presságio da liberdade dos povos oprimidos pelo
                   [endoluminismo.
Vou chorar de tanta perna partida
e do tanto cansaço observável nos poetas com menos de dezoito anos.

Nunca se conheceu desastre igual.
Até as Irmãs da Caridade falam de crise
e escrevem-se grossos volumes sobre a decadência do creme de barbear entre                                                                                                                            [os esquimós.

Digam aonde vamos parar com tanta angústia
e tanta dor de pais desconhecidos entre si.

Quando Santo Agostinho se der conta de que os telefones automáticos                                                                                                                       [deixaram de funcionar
e de que os seguros contra incêndios foram timidamente escondidos nos                                                                                                 [cabelos das rapariguinhas loiras
ah então quando Santo Agostinho tiver sabido de tudo
um grande raio descerá sobre a terra e num abrir e fechar de olhos 
                                                                          [converter-nos-emos todos em idiotas.