sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Língua

Os gestos que já foram repetidos
e os objectos cujos nomes desconheces
de tanto os teres dito
vertiginosamente segredam no silêncio

As coisas outrora tuas foram gastas
e neste lado da casa há ruídos que caminham para a morte

Escrever no pavor de que esta língua também morra
de que tudo por sobre a terra caladamente morra


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Final do Jogo - Julio Cortázar



O nosso reino era assim: uma grande curva das vias concluía o seu arco precisamente à frente das traseiras da nossa casa. Havia apenas o balastro, as travessas e a via dupla, a erva rala e estúpida entre pedras em pedaços onde a mica, o quartzo e o feldspato – que são os componentes do granito – brilhavam como autênticos diamantes ao sol das duas horas da tarde. Quando nos agachávamos para tocar nas vias (sem nos demorarmos muito, pois era perigoso ficar ali durante muito tempo, não tanto pelos comboios mas mais por quem estava em casa, caso nos chegassem a ver) o fogo das pedras subia-nos à cara, e quando nos detínhamos com o vento do rio de frente era um calor molhado que se nos colava às bochechas e às orelhas. Gostávamos de dobrar as pernas, baixando e subindo e baixando outra vez, invadindo uma e outra zona de calor, observando, gostando de ver as nossas caras transpiradas, até ficarmos ensopadas. E caladas sempre, olhando o fundo das vias ou o rio do outro lado, o pedacinho de rio cor de café com leite.

Final do Jogo
Cavalo de Ferro, 2014

domingo, 30 de novembro de 2014

O ídolo das Cícladas - Julio Cortázar



Antes de voltar a olhar para ele, Morand vomitou no canto do atelier, sobre os trapos sujos. Sentia-se vazio, e vomitar fez-lhe bem. Levantou o copo do chão e bebeu o que restava do whisky, pensando que Thérèse chegaria a qualquer momento e que era necessário fazer alguma coisa, avisar a polícia, explicar-se. Enquanto arrastava com um pé o corpo de Somoza, até expô-lo inteiro à luz do reflector, pensou que não lhe seria difícil demonstrar que agira em legítima defesa. As excentricidades de Somoza, o seu alheamento do mundo, a evidente loucura. Agachando-se, molhou as mãos no sangue que corria pela cara e pelo cabelo do morto, olhando ao mesmo tempo o seu relógio de pulso que marcava as sete e quarenta. Thérèse devia estar a chegar, o melhor era sair, esperar por ela no jardim ou na rua, evitar-lhe o espectáculo do ídolo com a cara jorrando sangue, os fiozinhos vermelhos que resvalavam pelo pescoço, contornavam os seios, que se juntavam no fino triângulo do sexo, escorriam pelas coxas. O machado estava profundamente sepultado na cabeça do sacrificado, e Morand agarrou-o balanceando-o entre as mãos pegajosas. Empurrou um pouco mais o cadáver com um pé até deixá-lo contra a coluna, farejou o ar e aproximou-se da porta. O melhor seria abri-la para que Thérèse pudesse entrar. Apoiando o machado junto à porta, começou a tirar a roupa, porque estava calor e cheirava a um ar espesso, a uma multidão encerrada. Já estava despido quando ouviu o ruído do táxi e a voz de Thérèse dominando o som das flautas. Apagou a luz e, com o machado na mão, esperou atrás da porta, lambendo o gume do machado e pensando que Thérèse era a pontualidade em pessoa.

Final do Jogo
Cavalo de Ferro, 2014