André Carrilho é um ilustrador
português cujo trabalho tem sido amplamente premiado e internacionalmente
reconhecido. Em Inércia, publicado
pela Abysmo, reúne um diário gráfico que regista e reflecte sobre as suas
viagens pelo mundo entre Janeiro de 2012 e Agosto de 2013. Os textos que
acompanham as composições gráficas servem de pretexto a uma atenta reflexão
sobre a temática da viagem como manifestação identitária cuja ambiguidade gostaria
de destacar.
A
formulação verbal do projecto que percorre as páginas deste livro ajuda-nos a
compreender essa dimensão identitária que se associa ao acto de viajar, tal
concebido por Guattari e Ronick. Afirma o autor que «os desenhos deste livro foram
feitos presencialmente no local que retratam, à mão, com canetas, tintas
acrílicas, grafite solúvel e aguarelas». Verificamos que o autor faz menção de
uma espécie de concepção primária da relação do sujeito com o desenho e com o
espaço, sublinhando o despojamento instrumental e técnico que subjaz a uma
relação presencial com o espaço, com
recurso a materiais simples e a uma predominante fisicalidade (a mão) no
relacionamento com o local retratado, com um grau de re-tratamento que,
sendo-o, não dispensa uma fidelidade mimética à realidade, numa reprodução à escala.
Aquilo
que se esconde por detrás destas palavras é uma curiosa encenação do próprio
figurino do viajante como tal, desde a dimensão diarística desta obra ao
recurso ao pequeno caderno em que, à maneira de anotação da participação do
sujeito nos espaços retratados, faz as anotações dessa mesma participação,
transparecendo assim uma encenação do próprio objecto-livro como o resultado de
uma experiência no seu sentido
absoluto, de uma vivência particular de um determinado conjunto de
contingências espácio-temporais por um sujeito que olha.
A
viagem e o viajante atravessam assim como espectro toda a significação que nos
é proposta, a começar pelo título que refere a inércia dos corpos com vocação
para o movimento, para «continuar em movimento» mesmo apesar das limitações
físicas da realidade contingente que os obriga a parar. Esses corpos inscrevem
assim um halo de vontade, um lançar-se no espaço que permanece como apetite
maior de alguém que exerce com o olhar um apropriamento da realidade que
percorre.
É
sobre esse apetite que o autor reflecte, e cabe-nos perguntar pelo que subjaz a
essa permanência da vontade de um outro espaço que desperta nele a necessidade
de recusar o estado estacionário que incide inclusive sobre a sua relação com o
próprio desenho, circulando, como afirma, sempre a «contra-ciclo» do mesmo,
recusando esperar que o mesmo atinja o limite da conclusividade que um autor
pode controlar, a publicação, perscrutando sempre novos espaços.
Aquilo
que inicialmente Carrilho parece não compreender é justamente o modo como as
suas palavras e a sua atitude reflectem a disposição fundamental da existência
humana para projectar um olhar tendencialmente turístico por sobre o mundo, a
pretexto da relação do indivíduo com o que lhe é alheio. Quando recusa
submeter-se aos conceitos de turista e de viajante, pois, segundo o que afirma,
«Ambos têm algo que eu não tenho: disponibilidade para o que encontram no
caminho», o autor observa o facto de a atitude que a ambos subjaz ser a própria
de quem está, como estamos em viagem, predisposto para o olhar. O que o autor
não problematiza directamente é o facto de essa predisposição para o olhar não
implicar, e pelo contrário recusar, a disponibilidade para o espaço a que o
turista e o viajante chegam. E tal ocorre pela mesma razão que justifica que
afirmemos que a própria recusa de se confundir com um turista ou um viajante
fazem vingar em Carrilho aquilo que nele é precisamente um olhar turístico.
Reparemos
que não apenas aquele que viaja como viajante e como turista assume um papel no
relacionamento com o espaço visitado que justamente implica à partida uma não
pertença a esse mesmo espaço que cada gesto caucionará. É o discurso da não
pertença que se esconde por detrás da objectiva do turista que percorre os
locais de interesse turístico, mas é também de não pertença o discurso que o
viajante que recusa esses mesmos locais e opta pela imersão, assim o julga, na
cultura visitada, exibe por detrás da sua auto-limitação à exibição do
turístico que nele há. A pretensão de uma familiaridade com o espaço que resulta
numa criação de rotinas levada a cabo no mesmo, «como se sempre lá tivesse
estado», não é senão um modo de afirmar a não pertença do sujeito ao mesmo.
Saber desta aporia não é um mero exercício de problematização, mas um modo de
reconhecermos a necessidade intrínseca ao sujeito humano de preservar um olhar
turístico que é nele um modo de manifestar a sua carência de identidade.
Quando
Lacan estudava a fundação especular do eu, ou quando Ricoeur afirmava a
formação da ipseidade pela alteridade, não estávamos na presença senão da
teoria que subjaz àquilo que este livro nos ajuda a evidenciar. O sujeito é
carente de preservar na diferença para com o espaço alheio para que garanta uma
espécie de permanente regressus ad uterum
(penso em Eliade) que lhe garante um sentido de pertença dado a priori. Esse desejo grita por todos os
lados no mundo urbano da alimentação transgénica gourmet, das feiras periódicas,
das auto-estradas pejadas de gente regressando a casa em vésperas de
fim-de-semana prolongado. Dispersos como somos por tantos não-lugares que Augé
identificou na nossa era urbana, como poderíamos migrar de facto entre lugares?
A
cidade oferece-nos o culto da individualidade aparente, da aleatoridade e da
prescindibilidade das relações humanas (agora somos sociais) e fomos domesticados nesse regime de incomunicabilidade (o
qual, é certo, é no limite radical ao Homem) e até o centro é para nós comercial. Não é de espantar portanto
que a literatura de viagens atinja o actual surto de interesse do grande público, pois funciona como uma
sala de espelhos da nossa solidão em
viagem. Nessa literatura, quer o saibam ou não os seus autores, não
encontramos senão a radicalização das figuras de alteridade avaliadas, mesmo
que não judicativamente, pelo nosso olhar turístico. Ela manifesta a contínua
criação de um sistema de tabus, tal como observava Rivière, que demarca a
diferença constitutiva, identitária, entre o viajante e o espaço da viagem.
Assim,
e como as palavras de Carrilho demonstram, permanecemos mergulhados nos
entrelugares que a nossa modernidade nos legou, não ultrapassando na relação
com o espaço, seja ele qual for fora do útero materno, o sentimento de unhomeliness a que se referia Bhabha, um
desconforto latente na relação com o onde
não é o meu lar. Essa latência arvora amiúde nos processos de espectacularização ou de exotificação do espaço estrangeiro tão
próprios do olhar turístico, do modo de acesso ao que é próprio de uma alteridade
de cuja preservação dito olhar depende. O olhar turístico transforma-se assim
em ferramenta de cristalização do pitoresco, a qual visa neutralizar, como bem
observou Pratt, através do engodo auto-proposto da superioridade cultural, uma
ameaça. A alteridade é assim coisa de se estranhar, relegada para guetos
mentais que a preservam como tal, na dimensão ideológica da perspectivação do
turista que preserva o exotismo do turístico como espectáculo do qual, para que
o seja como tal, ele necessariamente não
participa.
Esta
ausência de uma vontade concreta de participação no espaço visitado, de uma
vontade de migração autêntica, induz uma prática da distância. A evidência de
que o espaço novo não constitui uma oportunidade concreta de mudança, de que esta não é a minha casa, cauciona a
condição turística de haver uma aonde regressar, sendo pois a viagem um
mecanismo de passageiro contacto com “the Exotic Other” (Bruner), através do
qual o turista encontra, afinal, aquilo que já possuía, a sua absoluta pertença
apenas e só a uma origem que faz de qualquer viagem, e em última análise de
qualquer relação com o outro, uma mera actividade recreativa, cujo carácter
efémero resulta também do próprio comportamento dos “nativos” desse espaço. Com
efeito, conforme observaram antropólogos como Smith ou Mansperger, os agentes
do espaço turístico agem como tal, reforçando (pela simpatia, pelo bem receber,
pelo saber falar a língua do outro, por exemplo) a identidade local e recusando
assim integrar o viajante.
Se
a comunicação implica uma memória partilhada, de acordo com um Lotman, o
passado transforma-se em presença fantasmática (em saudade), impossibilitando a absorção do eu pelo outro. A
persistência do olhar turístico, da memória da origem, gera assim uma disfunção
relacional com o novo. Compreendemos agora por que razão Carrilho afirma que
precisa de afastar-se de casa sempre que pretende prosseguir o seu trabalho
gráfico, porque em casa sente-se «mais lento, mais ancorado». A libertação
desse espaço, assim tão deliberada, para poder conquistar a «claridade e
leveza» que possibilitam o desenho, não é senão um modo de preservá-lo como
angústia, como prisão identitária, tornando-o incapaz de se libertar da sua
nidificação.
Aparentemente,
só o processo artístico permite anular, mesmo que momentaneamente, a fugacidade
inerente à viagem, o seu carácter aprazado. Carrilho permanece dias a fio no
mesmo local, observando, mergulhando numa relação rotineira com o espaço,
ignorando os guias turísticos, e tudo isto é, já o vimos, apenas um modo de os
não ignorar, de perpetuar o olhar do estrangeiro em visita. E porém «Desenhar
tem o poder de abrandar tudo, de me tornar mais imerso num canto particular da
realidade. Não penso em mais nada a não ser no que estou a ver. Aliás não penso,
olho. E é o desenho que encontra por mim». A imersão técnica do trabalho
artístico reduz o eu a uma entidade que exalta as formas perceptivas da
realidade, na sua elementaridade geométrica e/ou tonal. Essa imersão promove
assim uma espécie de relação com uma realidade em instantâneo que suspende por
instantes o mundo e as suas relações. Nesses instantes, André Carrilho entra no
desenho como quem entra em casa, como quem chega a uma casa que não está em
nenhum e está em todo o espaço.
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