Contra uma
espécie de mal-du-siécle, através da
condenação da torpeza comportamental do homem, a literatura é para Fialho de Almeida um universo de possíveis que declina um real disfórico,
em que predominam «a degenerescência das raças pelos excessos do
trabalho e abusos de prazer, (…) a consciência da inutilidade de todos os
esforços para atingir a perfeição absoluta» gerando «sociedades inquietantes»,
que têm «uma feição de decadência» (Os Gatos).
Essa disforia associa-se, desde Os Gatos, à cidade, espaço-necrópole, dirigido por um sem sentido
finimundista, marcado pelo virar do século de dimensão apocalíptica que anuncia
a decadência da raça e da pátria, assente numa retórica da perda, da qual
“escorre uma agonia de fin de la fin,
uma enregelada miséria de país gasto, de país morto, de país podre!” (Os Gatos). Lisboa «podia evocar alguma
dessas necrópoles torvas, onde as festas resumiam a vida, as carnes das
mulheres se cobriam de lhamas de ouro em púrpuras radiantes, a música embalava
a embriaguez dos soldados e capitães, e do homem nada vivia senão a besta,
tripudiando em concupiscências fenomenais» (Os
Gatos). Essa ville malade (à
maneira de Eugéne Sue), constitui-se como um espaço para a “radical
negatividade da obra fialhiana” a que se refere Isabel Pinto Mateus.
Com efeito, a crise, situada no espaço urbano, é o resultado de
um sentido de profunda irrealização, que apela em Fialho à subversão ou
transcendência pelo literário. Uma
atitude do tipo niilista, que configura o trajecto pré-existencial e
pré-surreal do autor (O Sineiro de Santa
Ágata), um pessimismo cuja forma recorda Schopenhauer, Nietzsche ou
Hartmann, tem subjacente uma atitude estetista que relata uma experiência da
deserção artística, como resposta ao
sentimento de desespero: «O fim de século é também, me parece, um fim de
encanto» (Vida Irónica), ao abrigo do
signo do Nada, porque «sobreviver-se era o ideal antigo, de quando os homens
ainda tinham fé. Agora cada qual de nós levanta os braços, desesperado, a
suplicar que alguém o livre de si mesmo».
Os elementos
(naturais ou civilizacionais) revelam-se limitadores à concretização do homem,
do seu sonho ou da sua transcendência. Perante esta permanente
insatisfação com os limites do existir e da estrutura cronotópica (um
eu-aqui-agora) irredutível do mundo, o eu projecta um horizonte de esperança
angustiada e confusa, que não respeita a um sentido progressista e positivista
que Fialho nega em absoluto, mas a uma ética, ou seja a uma prática, que é o da
própria arte como transgressora de limitações. Uma utopia não histórica mas
poética, que existe, como afirma Barthes, para
fazer sentido, para achar um sentido num mundo que o perdera, concretiza-se
em Fialho numa vocação crítica,
de penalização dos vícios de um tempo decadente, numa esperança que existe
apenas, como afirmava Sartre, na sua acção. Esse segredo utópico do estetismo,
sem compromisso vitalista, constitui, portanto, uma forma de actualização do
perfil revoltoso, apesar da
inutilidade de tudo, pois a literatura é ainda, para Fialho, a forma nobre de o
Homem existir.
Por isso mesmo Fialho anuncia a dissolução de uma perspectiva
positivista em literatura que a condenava ao olhar laboratorial e documental
que desconhecia a matéria do submundo ou do supermundo do real, através dum
olhar estilizado ou plasticizado, contra o perfil imitativo da mimesis realista, em que a literatura se
funda como «sentimento vertiginal de força e plenitude» e «o artista se
abandona às coisas que o rodeiam, força-as a quererem d’ele, violenta-as,
transforma-as, até que elas lhe reflictam a força, e sejam o breviário da sua
perfeição” (Barbear, Pentear).
Através deste estetismo ético se desenrola a revolta contra todas as convenções
sócio-culturais e artísticas, resvalando amiúde em agonismo ou absurdo
existencial, em solidão ou em princípios de náusea, anunciando de certa forma o
sofrimento cósmico de Raul Brandão. Uma série de derivativos – donde a sedução
pelos japonesismos - desdobra-se para criar um efeito de perplexidade, de
alucinação em que a literatura fialhiana (numa modernidade que prolonga uma tradição da ruptura, nos termos de
Octavio Paz) se inscreve para criar o universo paralelo, mecanismo desses paraísos artificiais para que apontava
Baudelaire.
Esse mundo ao contrário,
tal como o definiria Bakhtine, cunhado pelo exercício
do estranho associado ao obsessivo apelo do potencial exótico/excêntrico de
um estilo participante de uma noção da opacidade
fundamental do texto literário (tal como entendida pelos formalistas), e a que
Fialho é sensível, através do recurso a neologismos, plebeísmos, galicismos e tecnicismos
médicos e à tematização de novos mundos, em particular o da cidade proletária, forja
o culto da artificialidade e da decomposição,
o antimimetismo, o abjeccionismo, o novismo, o individualismo, o autotelismo, formas
de um carnaval que visa «ressuscitar
com vida d’espírito a matéria amorfa e analgésica (…) criar formas,
fantasmagorias, sonhos que agitem mundos” (Barbear,
Pentear).
Forma de «violência» (A Cidade do Vício), a sua arte pode ser
assim lida à luz duma estética da
negatividade tal como interpretada por Adorno e Marcuse, como instrumento
de superação catártica a que o autor associa o mundo carnavalizado, realidade
de sentido subterrâneo e alucinado que animaliza ou fantasmagoriza o ser, fruto
de uma subjectivação, da estilização,
ou daquilo a que Fialho chama a despolarização
do real.
Esse mundo
fantasmático é gerado pelo grotesco que repercute uma vontade de intensidade e
plenitude que configura uma experiência da tragicidade do existir humano, da
sua inconcretização, alienação, loucura. No limiar entre realidade e idealidade em que o eu se
posiciona desenha-se um estado
alucinatório e o mundo inferior, infernal, emerge à superfície, cunhado pelas
formas rembrandtescas ou goyescas, sintomas de um outro nível de
realidade, promovido por assombrações, visões ou aparições, formas dos zombies da idealidade.
Assim, a arte
de Fialho consiste em ultrapassar o nível da realidade, complexificando-o pela
subjectivação alucinatória e não confessionalista, através da qual o
mundo ganha a forma dum inferno de prazeres, sem interdições. Esse universo de possíveis, que consubstancia a experiência utópica e que resulta frequentemente da
devolução do homem ao lado baixo (animalesco, vegetal) da vida, império do
corpo a manifestar-se, associa-se ao grotesco, forma do excesso corporal
que atinge em Fialho de Almeida uma outra dimensão, de análise dos carácteres,
através do excesso psicológico, que é o cerne dum olhar caricatural.
O hiperbolismo (essa demanda do excesso) configura um
discurso da euforia e do prazer mórbido, da elementaridade grotesca habitada
pela degradação, pela queda, pela
animalidade e pela vizinhança da morte: «por cima, bêbedos de carnagem,
fornicando e comendo sobre a morte, cada vez mais, os abutres turbilhonam, numa
festa d’animais gozosos da tortura humana…» (Os Gatos), dimensão grotesca pontuada, porém, por interstícios de
exposição da face solar de uma transrealidade que nasce no avesso do escuro, sitiada
de “mordeduras da luz”, “síncopes de sede”, “moscas de fogo”, “índoles de
salamandra”.
Revelando esta
dimensão paradoxal, essa ironia do mundo
(Schlegel) consiste na apreensão angustiada duma alienação pessoal: «Pesa-nos sobretudo a consciência de
que o nosso reino já não seja deste mundo» (Os
Gatos). Neste hiato,
há um universo labiríntico e fantasmático que pode aparecer, associado a um
apelo da noite que inaugura um espaço para a angústia, para a deformidade, para
aquela despolarização do real, que faz emergir o universo espectral das sombras
que afectam o eu. Porque a noite «é a grande caverna de alquimia poética» (Figuras de Destaque), é nela que o mundo
inferior, infernal, emerge à superfície. Abundam os “túmulos”, os “países
submarinos”, os “reinos de coral” ou os “galeões submersos”, na desolação de
uma paisagem de «espectros nocturnos» (Os
Gatos), num cenário negro, espesso, rodeado de neblinas, donde emergem os
monstros inconscientes do ser, os recantos nocturnos duma cidade de vultos, de
«silhouettes tenebrosas» (Os Gatos).
Esta
fantasmagoria gera uma cosmovisão do terror aparicional, através da descida ao
inferno interior, como catábase, à inconsciência consciencializada, ao mundo do
sonho trazido à superfície. A
figuração patética de uma série de almas
penadas transforma a existência, à maneira de Unamuno, «numa névoa, onde se
movem sombras indistintas…» (À Esquina).
A inquietação, associada ao unheimlich
freudiano, transforma-se em «calafrio», através da animação do mundo
subterrâneo, do baixo actuando como o alto por um processo de analogias, o que
justifica a obsessão com o cemitério, mundo dos mortos que tem paralelo com o
mundo dos vivos, essa «cidade obscura dos de caixão à terra, dos
prometidos das larvas» (Os Gatos), uma
cidade percorrida por espectros,
horrorista, despertando «uma sensação de pesadelo subterrâneo» que alimenta um
«belo horrível» (Os Gatos).
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