sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Sobre "O Lago", de Ana Teresa Pereira



A novela que em 2012 valeu a Ana Teresa Pereira o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores retoma a tematização de uma demanda identitária de ambiência fantasmática em torno de uma situação prévia de solidão, vivida pela protagonista, que integra desse modo a problemática amorosa no horizonte da descoberta de um eu. Revisitando o problema da apropriação do outro como instrumentalização egográfica, Jane, actriz jovem e inexperiente, vê-se enredada pela dimensão demoníaca de Tom, reputado dramaturgo de intenso pendor demiúrgico que vive em busca de uma transcendência visada pela criação pigmaliónica de um universo fictício de duração real, um “mundo perfeito” autotélico em que figurasse a personagem feminina que engendra e à qual falta ainda o corpo que ela aparentemente lhe oferecerá, porque ele “só podia amar de facto um ser criado por ele”. O universo teatral justamente promove a possível coincidência performativa do dizer ao fazer que realiza o encontro catártico que a figura autoral deseja, diluindo as fronteiras entre ficção e realidade de modo a que o eu possa aceder a si mesmo: “dirigir uma peça ou um filme é procurar algo de tímido e interior, escondido nos bosques do nosso ser”.

O projecto de formatação de Jane por Tom confirma a singular aptidão de Ana Teresa Pereira para a exploração do medo, do quase horror. Como poucos, sabe a autora que aquele não decorre de uma deformação do real mas sim de uma intensificação ou aprofundamento do mesmo, através da detenção do olhar. O horror é aqui um modo de focar, num mapeamento dos detalhes banais do quotidiano que, sucessivamente sobrepostos em movimentos espiralares, se deixam contaminar por uma espécie de vertigem. O medo está disseminado sobretudo pela estratégia da repetição dos gestos em camadas cada vez mais profundas de alienação do eu pelas rotinas: “Foi um dia muito longo. Fez café fresco e comeu umas sandes à hora do almoço. Durante a tarde, a neve continuou a cair. Acendeu as luzes porque o tempo estava muito escuro. Viu alguns bailados de Balanchine. Ao anoitecer preparou uma refeição ligeira e sentou-se no quarto da frente, junto da janela. À medida que o tempo passava, convencia-se de que a estrada fora fechada, de que ele não poderia voltar. Estava sozinha no vale. Não sabia se tinha força suficiente para manter a sua realidade”. Assim se intensifica o universo referencial da narrativa, a partir de uma aparente superficialidade inicial paulatinamente dando para uma série de hesitações, receios e perturbações que torna a psicologia das personagens labiríntica, especular: “O texto era enigmático: começava de uma forma ligeira e depois ia escurecendo. Debaixo das palavras, como um curso de água, uma corrente de medo, quase de horror”. A ameaça que existe no que há de mais concreto e familiar transforma-se numa espécie de obsessão, que a dimensão metaficcional desta narrativa ajuda a esclarecer: “Quando estava a escrever, as coisas ligavam-se, ou antes, as suas ligações tornavam-se visíveis, como se ao acender uma vela pudesse ver as teias de aranha no canto de um quarto.”

Por via dessa iluminação das ligações, das teias de aranha no canto do texto, promovida por uma estrutura enunciativa repetitiva, se conquista uma circularidade que engendra uma topofobia: “Estavam prisioneiros no vale. As montanhas tinham-se aproximado, as árvores eram fantasmas de árvores, o jardim era um labirinto sem folhas. Jane abria a porta da cozinha e saía para aquele mundo branco. As suas pegadas na neve. A nostalgia de uma flor, de um pássaro. De uma haste de erva”. Porque é preciso que Jane seja “completamente” a personagem e passe “para o outro lado”, a espacialização do medo concretiza-se pela coincidência topográfica do cenário da peça que Jane interpreta com a casa de Tom, onde nidificaria o seu amor que lentamente se transformaria em ameaça de nadificação dela pela personagem que ele nela forjava. É naquele “vale maldito”, totalmente isolado do mundo, mundo per-feito, cerrado e circular - “Queria um mundo que fosse completo e perfeito em si mesmo. Como um buraco no universo” - que se processa a metamorfose, a partir da criação em Jane de um passado que não era o seu, de memórias que nunca foram suas, as “memórias de uma desconhecida” em que ela penetrava através de uma alienação afim da loucura. Desse modo se adensa uma inquietante estranheza que recobre o tema do duplo, a partir da participação, numa pessoa, de duas personas, a partir de um substracto agónico. Tom conhecia já Jane, conhecia-a sem ela: “Algumas vezes convencia-se de que o que faltava, além de um terrível segredo que ele mesmo não intuía, era a rapariga. Conhecia a sua forma de estar de pé, a sua forma de mover-se, o som dos seus movimentos”. E por isso “Jane tinha de desaparecer, completamente, na personagem”. Pouco a pouco ambas se confundem: “Ao amanhecer pensou que a peça e o seu livro de infância tinham entrado um pelo outro, e que já não era possível separá-los. E ela era a protagonista dos dois”. Jane começa a libertar-se de si mesma: “- Nunca tinha sido assim antes. Eu… / - Tu desapareceste. / - Sim. / - Sim. / - Conheces a oração de Miguel Ângelo… Senhor, liberta-me de mim mesmo… / - Para que eu possa servir-te… / - Sim. / - E se um dia eu não conseguir voltar? / - É um risco que corres. / - Ficar sempre lá”.


E no entanto há neste processo de metamorfose uma porosidade que tende para inibi-lo, uma suspensão dada pelo tópico da interrogação. Jane interrroga-se e onde principia a interrogação principia a desconfiança (o contrário do amor) e a desconfiança é a primeira modalidade da salvação: “Mas o coxear… ainda não sabia se era dela ou da personagem…” Onde Jane pode cercar-se de uma zona de ocultação, em que Tom (o autor) não intervém e a que apenas ela (a intérprete) acede, nasce o arbítrio livre, e Jane também inventa a personagem, confundindo o autor: “Sim, podia ser o corpo de uma bailarina. Sentiu uma certa ansiedade ao pensar que isso podia mudar muito a peça… a sensação de que a peça não estava terminada“. Tom torna-se vítima da sua própria estratégia e onde deixa confundirem-se Jane e a personagem abandona-as a si mesmas e permite que exista naquela ainda uma parte que a esta sobrevive. O dubitativo na relação do criador com a criatura adensa entre ambos uma nebulosa de mistério que é uma possibilidade de transcendência do eu dela por sobre a máscara que nela se inventou: “Perguntava a si mesma se ele acreditaria de facto estar a criar uma pessoa diferente. Ela é como eu, só com olhos azuis. Uma espécie de duplo”; “Mas só quando começou a escurecer ele perguntou a si mesmo se ela seria outra pessoa (…) Tinha a ver com os seus movimentos, com o seu ar cauteloso quando se apercebia de que ele estava a observá-la, como se tivesse medo de fazer algo de errado”. Agora “ele também estava perdido”, não tinha sido apenas nela que despertara alguma coisa ou alguém, também ele é de súbito criado. Onde Tom se confunde com Deus e não pode deixar de sonhar Jane, torna-se, como bem soube um Unamuno, prisioneiro da sua própria criatura: “Ele não fora à aldeia. Tinha medo de deixá-la sozinha, mesmo por umas horas. Aquele pequeno mundo, e ela, precisavam da sua consciência para existir”. É onde a cobra da história se morde o rabo. Jane vinga-se de Tom, e escapa-lhe, revelando-lhe que ele próprio é personagem: “- E tu? Estás apaixonada por alguém? / - Estou apaixonada por ti. / - E ele? / - O homem na peça. / - Sim. / - Não encontro qualquer diferença.” O percurso egográfico, a procura da alteridade ficcional que devolvesse ao eu a sua própria substância, descobre nele a dimensão da sua própria aparencialidade. Principiando a amar Jane, Tom depende dela, instrumentaliza-se. O autor perde o próprio poder enunciativo (adensa-se o diálogo) e o espaço que criara, o seu pequeno mundo, começa a desvanecer-se: “Nos últimos dias, ela parecia inquieta. Tom pensava que tinha a ver com o tempo. Não estava tanto frio e o gelo começara a derreter. Fragmentos de gelo desprendiam-se do telhado e das rochas”. É onde a ficção rompe com o universo topofóbico: “Nesse dia viu algumas flores. Duas ou três campainhas brancas, alguns açafrões, muito juntos, que pareciam ter saído da neve. Nas árvores, o movimento de um pássaro”. A vida retomada outra vez.

Sem comentários:

Enviar um comentário